sexta, 25 setembro 2015 17:30

"Será cada vez mais importante o investimento na prevenção e diagnóstico precoce"

Entrevista à presidente da SPO: "O cancro é a doença com maior impacto económico quando analisamos os anos de vida perdidos ajustados à incapacidade"

 Acabada de chegar do congresso da ASCO (American Society of Clinical Oncology), a Dr.ª Gabriela Sousa não estará presente em Viena, neste ECC2015. Ainda assim, não deixou de reforçar alguns aspetos que gostaria que fossem debatidos neste evento. Um desses aspetos prende-se com a necessidade de criar políticas de saúde que favoreçam os cuidados prestados aos doentes. 

“Será cada vez mais importante o investimento na prevenção e no diagnóstico precoce, com reforço das instituições no sentido de melhorarem a sua capacidade de resposta e de garantir o tratamento atempadamente”, sublinha a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO).

News Farma (NF) | Quais as suas expectativas em relação a este congresso?

Dr.ª Gabriela Sousa (GS) | Este congresso representa a maior reunião científica na Europa de profissionais ligados ao cancro. Portanto, as expectativas são sempre muito elevadas. Para além das notícias científicas, este congresso reveste-se de grande importância para a oncologia europeia pela rede de contactos que permite, pelas sinergias que é possível desenvolver. A Oncologia moderna é cada vez mais multidisciplinar e multiprofissional e, apesar das tecnologias favorecerem uma aproximação virtual, é sempre muito agradável poder partilhar experiências com pessoas que muitas vezes têm as mesmas dificuldades que nós. Todos aprendemos.

News Farma | A organização deste ECC2015 garante que será aqui feita a ponte entre a investigação básica e translacional e a investigação e a prática clínica. Na sua opinião, há ainda um vazio que separa estas duas realidades?

GS | A ciência básica e translacional é geralmente desenvolvida em centros académicos e universidades, enquanto a investigação clínica e prática diária com os doentes se faz nas instituições de saúde vocacionadas para a vertente assistencial. Ao longo dos anos temos assistido inevitavelmente a uma aproximação e muitas vezes a um intercâmbio de conhecimento entre as duas vertentes. Contudo, ainda insuficiente. É de facto urgente esta aproximação. A criação de parcerias entre as instituições mais dedicadas a cada uma das áreas, e a recente criação dos centros académicos são já alguns passos que o nosso país tem dado neste sentido. Desta ligação resultará certamente maior qualidade na investigação, maior eficiência na utilização dos recursos e melhores resultados.

NF | Que grandes novidades se aguardam?

GS | A velocidade com que o conhecimento avança hoje é espantosa. E acredito que será na área da imunologia e do melhor conhecimento do hospedeiro, que nos próximos anos teremos mais novidades!

NF | Do ponto de vista das políticas de saúde, serão debatidos aspetos como a escassez de oncologistas na Europa, o vazio de evidências nos doentes pediátricos e geriátricos e a acessibilidade à inovação. Estas são realidades que afetam também o nosso país?

GS | Claro que sim. Estes grandes temas são transversais ao mundo ocidental. Será um desafio para a Europa e para cada país em particular, definir políticas de saúde e encontrar formas de financiamento, que permitam garantir equidade de acesso à inovação entre os países e dentro de cada país, a todos os cidadãos. Esta será talvez a questão mais importante a definir nos próximos anos e exige a participação na discussão dos profissionais, mas sobretudo da sociedade civil.

O cancro é a doença com maior impacto económico quando analisamos os anos de vida perdidos ajustados à incapacidade, pelo que será cada vez mais importante o investimento na prevenção e no diagnóstico precoce, com reforço das instituições no sentido de melhorarem a sua capacidade de resposta atempada e de garantir o tratamento atempadamente.

NF | E em relação à Oncologia pediátrica e geriátrica?

GS | Cada ano assistimos a um aumento do número de novos casos de cancro, e dado o contributo do envelhecimento da população, a oncologia geriátrica terá que começar a desenvolver-se. Mas o cancro também cada vez mais jovens e hoje com a melhoria ao nível do diagnóstico e tratamento também há uma população crescente que é a dos sobreviventes...é preciso garantir a estas pessoas re-integração social e laboral, e ajudá-los nos problemas específicos dos sobreviventes. São muitas as áreas onde são precisos Oncologistas. Mas esta é uma área da medicina de elevada exigência, não só ao nível científico, mas sobretudo ao nível humano, e os últimos anos têm exigido muito dos profissionais. Muitos dos jovens se têm desmotivado com a realidade do país e emigram ou saem da carreira hospitalar, os mais velhos têm antecipado as suas reformas, e assiste-se a uma enorme escassez de recursos humanos nos nossos hospitais.

Estou certa que este congresso será um importante momento de partilha e de aprendizagem para todos. Desejo a todos os participantes um bom congresso.